quinta-feira, 17 de março de 2011

Elaborações de uma alma em descompasso.

Intrinsecamente fiel, leal e compromissada se revelava minha índole, sendo assim, sob o julgo de minha natureza as pessoas que seduzem o tempo todo apenas por gosto à luxúria são sádicas, cruéis e merecem ser castigadas.
Por um longo tempo mantive-me rigidamente dentro das fronteiras do meu caráter, era um trabalho árduo, de resignação e sacrifício. Era como caminhar por um caminho pétreo descalçado, sob um sol escaldante. Um dia, porém, pela dor dos calos, percebi que ao andar na linha reta da estrada de pedras eu perdia toda grama molhada dos campos, toda maciez da areia das praias, toda paisagem que se vê do céu quando se voa, todas as sensações que o corpo tem quando se nada.
Não havia Uma história, de Uma só estrada dura. Haviam histórias e mais histórias, tantas que com outras tantas se entrelaçavam e não cabia chegar o fim, porque o fim não chegava, o fim, nobre fim, triste fim, o fim é a morte e da morte não sabemos nada. Foi assim que me encontrei no avesso do que eu achava ser, com um riso alegre ao me deparar com os caminhos bifurcados, em frente à tantas possibilidades de escolha que não me permitiam mais escolher apenas uma e investir toda minha energia num só ponto. Se no passado, num plano ideal eu era lapidadamente, límpida e lúcida; no tempo em que me encontrava, do chão, dos calos, dos caminhos vastos eu era embusteira de mim mesma, cigana, feiticeira das medidas herméticas: se a vida me dava é porque me interessava, assim nada me faltava, porém nada me sobrava. 
Estranho olhar para os próprios fenômenos tão cruamente assim... Noites de lua cheia sinto-me tão poderosa quanto a própria lua, sei que posso qualquer coisa, porque tudo está ao meu alcance reluzindo; mas quando ela escurece, chego a ter nojo de todos os becos explorados, as bocas fúteis que beijei, considero todo gozo desperdiçado, vão, um atraso na evolução... Me sinto tola: não seduzo o espelho, é ele que me engana, como enganou Narciso e outros tantos. Sei que as pedras são duras demais e a vastidão dos campos de tão imensa me oprime, a justa medida, segredo do fim dessa angústia, dessa não sei... Mas estarei a estarei a buscá-la.  

terça-feira, 8 de março de 2011

Mirra, mar e carnaval.

Jogava tudo que pudesse ser confundido com amor pelas janelas do carro em movimento, deixando que rolassem a encosta se quebrando nas pedras musguentas limadas pelas ondas do mar, os cacos, não sei, mas em breve... Em breve no tempo divino, se tornariam belíssimas conchas reluzentes. Tal pensamento a livrara da culpa. O mar a livrara da culpa. O mar... O mar ensina os homens a amar, às mulheres o mar ensina a suportar, amar elas sempre souberam.
Porém, antes de rolar a encosta e se espatifar em pedregulhos ele lhe trouxe um suave ramo de mirra. Encantada pela planta sagrada, sentindo-se divinamente atordoada por pouco não se confundiu e pediu que ficasse. "Tadinha, não viu o sol hoje!" - falando de si-mesma e olhando a planta, atordoada com a terça-feira de carnaval onde a tristeza ao invés de sepultada andava pela casa logrando à todos na chuvosa tarde. Diante do clamor das águas lembrou do que o homem lhe dissera: "antes da onda propícia, sete ondas encantadas virão sinalizando o porvir". Certamente ele era apenas uma precipitação, ou nem isso...
Só o coração para apontar as sete ondas reluzentes. Seria cada uma um fragmento de arco-íris? As substâncias alquímicas? As portas do paraíso? O mar era um oráculo e no tempo certo das coisas, as brisas trariam um saudoso cheiro de mirra, trariam conchas reluzentes, trariam de volta o amor perdido que escoou nas enxurrada das tardes de terça-feira de carnaval...

"Visão do espaço sideral
Onde o que eu sou se afoga
Meu fumo e minha Yoga
Você é minha droga
Paixão e carnaval..."
("Meu bem, meu mal" - Caetano Veloso)