Após navegar tantas tormentas em revolto mar, numa clara manhã de domingo eu viria a despertar ao seu lado, diante de sua nobre nudez, tão pura quanto provocante, a textura tenra de sua tez acordando meus sentidos: olhar e tato; fiquei a admirar sua face dormindo, seus lábios sugerindo um leve sorriso, sua respiração lenta e profunda que no silencio do quarto alcançava o pulsar do meu coração e eu pensando o quanto prazer senti em seus braços, na sua cama, no contato com a maciez de seus lábios, com seu sexo tão delicioso, e não pude deixar de sentir uma certa angústia pela manhã ter nascido e o tempo impiedoso a passar tornando meus dedos cada vez mais desesperados para percorrer um pouco mais sua pele, atravessar seus pelos, pois ainda não lhe conheço, não lhe conheço nem um pouco, nem corpo, nem alma, não sei o que pensas, só sei o que eu penso sobre o que você estaria a pensar, mas isso não é você e essa não sou eu, apenas um fragmento, ou melhor, um fractal, inteiro sim, mas apenas um fractal de uma vasta imensidão de ser.
É preciso tempo pra conhecer a imensidão; é preciso desejo, vontade. É preciso paciência, é preciso estar perto e disponível, disponível não: vulnerável. É preciso estar vulnerável e cheio de coragem ou que seja de cansaço para ser arrebatado por essas ondas. Fechar os olhos, quebrar os relógios, jogar as chaves pela janela, ignorar horas e datas, ignorar o passado e as histórias mal fadadas, desprender-se da culpa, enfrentar o medo, é preciso matar tantos dragões sem forma nem nome amontoados em nossos escuros porões, meu coração preso em um antigo cárcere enquanto o seu se faz presente em um velório e ninguém está aqui nesse amanhecer. Desapego e peço que seja feita a vontade maior, fortes serão os ventos da liberdade, pra colocar no prumo esses barcos, a vontade divina afina a vida e tece nosso encontro num próximo tropeço, que seja num pequeno descuido, estaremos num presente leve e claro, libertos para o porvir.