- Por favor, fique. Fica aqui
comigo mesmo que eu não emagreça, que eu volte a comer carne por fraqueza, que
até de depilar o buço eu me esqueça. Temo que você se vá desse lugar quando
perceber que nossa casa está há dias sem limpar, que a poeira tornou a assentar, e o lodo está espesso por entre os azulejos do banheiro. Porque pode ser que eu
desista da vida por uns dias e fique parada deitada encolhida ou esticada
esperando algo que eu não sei o que é, vir de longe me salvar. Enquanto minhas
pupilas se dilatam na escuridão na busca pela salvação, meu coração tem medo
que você olhe para a louça suja na pia, que deixaram pra depois no meio da
correria e sinta nojo ou desprezo da torneira pingando água limpa na gordura
que não se mistura. Não era uma vez um conto-de-fadas, era toda vez apenas a
realidade crua, a porta está rangendo, a lampada queimada, as páginas
amareladas, a parede manchada, meu sorriso torto, meu cabelo desgrenhado, a
pele perdendo o viço e ficando flácida. Na cama, parada deitada encolhida esticada
sonhando com a fonte da juventude, com a vida requintada dos deuses e dos
artistas na TV, sonhando com meus lábios tocando você enquanto sentes que meu
abraço que já não é mais seguro. Não é seguro aqui dentro, menos ainda lá fora
no frio da indiferença, por isso lhe imploro: por favor, fique.
