sábado, 2 de julho de 2011

O enigma da face e das caligrafias.

É certo que fomos muito tolos em não ter visto o mesmo rosto nas diferentes faces. Quase dois anos depois eu reli sua carta, tentando decifrar sua caligrafia, ora, será que poderiam ser as mesmas palavras em diferentes letras? Eles vem aqui, até sabem dos meus pensamentos, mas minha caligrafia é algo bastante íntimo. Diferente dos rostos que não podem ser escondidos, muito menos decifrados, tantas peculiaridades táteis e visuais, covinhas&pintas, cílios&dentes, tão absurdamente projetados! Esqueça o espelho e saiba (m) querido (s): só existes porque reflito algo do meu ser ti, e quem tu és além do que eu queria que foste? Isso não sei, talvez aí seja o Oásis que estamos a buscar. Como somos belos aliás?! Como isso me comove! Estava a misturar nossos traços em devaneios buscando criar a face de nossos filhos enquanto ouvia sobre essa cruel armadilha que é a exuberância dos nossos corpos, ouvia sim, eu via sua boca, seus lábios espessos delineadamente simétricos, ah! como os mitifiquei... Agora era tarde demais, jamais ousaria tocá-los, eu estava presa num feitiço há mais de dez encarnações: quanto mais perto da carne eu chegava, mais longe do espírito eu estava. "Não há como l-evitar" - pensei. "Meu coração está inerte, como um deserto" - você dizia. Nesse descompasso, eu só pensava em te beijar e isso era o que você mais temia, era tudo o que você não precisava, porque ao desfazer feitiços, nós cármicos, fogos de artifícios explodem as couraças criando novas constelações: o entusiasmo das supernovas, a alegria dos cometas e fatalmente a tragédia dos buracos negros... Ora, somos tão sábios, como cair nessa novamente? ...Nessa de não conseguir ver o mesmo rosto nas diferentes faces?