- Por favor, fique. Fica aqui
comigo mesmo que eu não emagreça, que eu volte a comer carne por fraqueza, que
até de depilar o buço eu me esqueça. Temo que você se vá desse lugar quando
perceber que nossa casa está há dias sem limpar, que a poeira tornou a assentar, e o lodo está espesso por entre os azulejos do banheiro. Porque pode ser que eu
desista da vida por uns dias e fique parada deitada encolhida ou esticada
esperando algo que eu não sei o que é, vir de longe me salvar. Enquanto minhas
pupilas se dilatam na escuridão na busca pela salvação, meu coração tem medo
que você olhe para a louça suja na pia, que deixaram pra depois no meio da
correria e sinta nojo ou desprezo da torneira pingando água limpa na gordura
que não se mistura. Não era uma vez um conto-de-fadas, era toda vez apenas a
realidade crua, a porta está rangendo, a lampada queimada, as páginas
amareladas, a parede manchada, meu sorriso torto, meu cabelo desgrenhado, a
pele perdendo o viço e ficando flácida. Na cama, parada deitada encolhida esticada
sonhando com a fonte da juventude, com a vida requintada dos deuses e dos
artistas na TV, sonhando com meus lábios tocando você enquanto sentes que meu
abraço que já não é mais seguro. Não é seguro aqui dentro, menos ainda lá fora
no frio da indiferença, por isso lhe imploro: por favor, fique.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
sábado, 2 de julho de 2011
O enigma da face e das caligrafias.
É certo que fomos muito tolos em não ter visto o mesmo rosto nas diferentes faces. Quase dois anos depois eu reli sua carta, tentando decifrar sua caligrafia, ora, será que poderiam ser as mesmas palavras em diferentes letras? Eles vem aqui, até sabem dos meus pensamentos, mas minha caligrafia é algo bastante íntimo. Diferente dos rostos que não podem ser escondidos, muito menos decifrados, tantas peculiaridades táteis e visuais, covinhas&pintas, cílios&dentes, tão absurdamente projetados! Esqueça o espelho e saiba (m) querido (s): só existes porque reflito algo do meu ser ti, e quem tu és além do que eu queria que foste? Isso não sei, talvez aí seja o Oásis que estamos a buscar. Como somos belos aliás?! Como isso me comove! Estava a misturar nossos traços em devaneios buscando criar a face de nossos filhos enquanto ouvia sobre essa cruel armadilha que é a exuberância dos nossos corpos, ouvia sim, eu via sua boca, seus lábios espessos delineadamente simétricos, ah! como os mitifiquei... Agora era tarde demais, jamais ousaria tocá-los, eu estava presa num feitiço há mais de dez encarnações: quanto mais perto da carne eu chegava, mais longe do espírito eu estava. "Não há como l-evitar" - pensei. "Meu coração está inerte, como um deserto" - você dizia. Nesse descompasso, eu só pensava em te beijar e isso era o que você mais temia, era tudo o que você não precisava, porque ao desfazer feitiços, nós cármicos, fogos de artifícios explodem as couraças criando novas constelações: o entusiasmo das supernovas, a alegria dos cometas e fatalmente a tragédia dos buracos negros... Ora, somos tão sábios, como cair nessa novamente? ...Nessa de não conseguir ver o mesmo rosto nas diferentes faces?
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Sexta-feira 13, não posso me censurar...
Não posso ceder a minha própria censura. Não posso. Decidi há muito que seria fiel aos meus pensamentos, aos meus segredos sombrios, revelando-os da maneira que fosse, sem culpa e sem remorso, porque sei que só assim conseguirei transpor a mediocridade e me tornar o que eu sei que sou.
Em Cosmorama os dias fazem o que podem, e as pessoas também, para serem iguais; mas de fato não são. Um dia chove, outro faz sol, segunda choro, quarta acordo rindo; de manhã admiro meu pai, sua dureza e sua ternura; à tardinha minha avó me seduz com café, bolinhos e histórias; na madrugada sei que só minha mãe me entende... O que cada um deles é, diz muito do que eu sou. Ando traçando a dupla-hélice, a escada retorcida que mistura minha mesquinhez com minhas dádivas.
Parece que hoje perdi algumas palavras e não sei bem o rumo deste ensaio, que eu considero um pequeno abrigo. Talvez, se chover demais, corro o risco de ver minhas palavras voltando ao seu estado primevo, de letras solitárias, misturadas com a lama da enxurrada, descendo a encosta da razão. Ficaria sozinha, lamentando o frio e a solidão; pois bem sei que coesão é o alicerce necessário à qualquer dito. Ora, falo, que falo apaixonadamente, numa língua sem nexo e sem perdão.
Enfim, só queria escrever algo parecido com “não me habituei com o tempo”; ‘inda hoje li num livro do Kundera “... o deserto do tempo emergia na penumbra, atroz e esmagador, semelhante à eternidade”, e uma lágrima calada tive que enxugar. Vejo o que ele faz com meu corpo, com essa casa, com meus amigos, com meus amores. Lembranças amargas de um passado que o presente borrou me assombram nas madrugadas, fantasmas vestem branco, são altos, aparecem em sonhos oferecendo doces, me dando a mão. De manhã, o sol volta, trazendo consigo minha lição penosa de que não é isso que eu quero mais. Não posso escolher meu destino, não saberei nunca quem vou encontrar no caminho, se será surpresa, se será poesia, se será dor ou alívio; mas posso ter fé. Posso desejar ser feliz, viver por inteiro e trazer alegria para os que estão ao meu redor. Se os amores vicejam na primavera e perdem a cor no inverno, tudo bem. Tenho minha aquarela na gaveta, meu livro das “Mil e Uma Noites”, e confio no brilho dos meus olhos para reavivar qualquer alma fadigada. O problema não é o inverno em si, nem sua intensidade, é o tempo que ele dura. Uma madrugada pode durar um ano, quando os fantasmas entram nos sonhos engendrando pesadelos. Arruda, espada de São Jorge, figa, incenso, qualquer coisa pra sumir de mim... Pra me deixar em paz. Pra ser só uma lembrança gostosa de um passado virtuoso, que vai ficar enterrado na memória, em fotografias, em velhas canções, mas que se foi com tudo mais que o tempo levou e nunca trouxe de volta.
Texto escrito no começo do inverno de 2009.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Elaborações de uma alma em descompasso.
Intrinsecamente fiel, leal e compromissada se revelava minha índole, sendo assim, sob o julgo de minha natureza as pessoas que seduzem o tempo todo apenas por gosto à luxúria são sádicas, cruéis e merecem ser castigadas.
Por um longo tempo mantive-me rigidamente dentro das fronteiras do meu caráter, era um trabalho árduo, de resignação e sacrifício. Era como caminhar por um caminho pétreo descalçado, sob um sol escaldante. Um dia, porém, pela dor dos calos, percebi que ao andar na linha reta da estrada de pedras eu perdia toda grama molhada dos campos, toda maciez da areia das praias, toda paisagem que se vê do céu quando se voa, todas as sensações que o corpo tem quando se nada.
Não havia Uma história, de Uma só estrada dura. Haviam histórias e mais histórias, tantas que com outras tantas se entrelaçavam e não cabia chegar o fim, porque o fim não chegava, o fim, nobre fim, triste fim, o fim é a morte e da morte não sabemos nada. Foi assim que me encontrei no avesso do que eu achava ser, com um riso alegre ao me deparar com os caminhos bifurcados, em frente à tantas possibilidades de escolha que não me permitiam mais escolher apenas uma e investir toda minha energia num só ponto. Se no passado, num plano ideal eu era lapidadamente, límpida e lúcida; no tempo em que me encontrava, do chão, dos calos, dos caminhos vastos eu era embusteira de mim mesma, cigana, feiticeira das medidas herméticas: se a vida me dava é porque me interessava, assim nada me faltava, porém nada me sobrava.
Estranho olhar para os próprios fenômenos tão cruamente assim... Noites de lua cheia sinto-me tão poderosa quanto a própria lua, sei que posso qualquer coisa, porque tudo está ao meu alcance reluzindo; mas quando ela escurece, chego a ter nojo de todos os becos explorados, as bocas fúteis que beijei, considero todo gozo desperdiçado, vão, um atraso na evolução... Me sinto tola: não seduzo o espelho, é ele que me engana, como enganou Narciso e outros tantos. Sei que as pedras são duras demais e a vastidão dos campos de tão imensa me oprime, a justa medida, segredo do fim dessa angústia, dessa não sei... Mas estarei a estarei a buscá-la.
terça-feira, 8 de março de 2011
Mirra, mar e carnaval.
Jogava tudo que pudesse ser confundido com amor pelas janelas do carro em movimento, deixando que rolassem a encosta se quebrando nas pedras musguentas limadas pelas ondas do mar, os cacos, não sei, mas em breve... Em breve no tempo divino, se tornariam belíssimas conchas reluzentes. Tal pensamento a livrara da culpa. O mar a livrara da culpa. O mar... O mar ensina os homens a amar, às mulheres o mar ensina a suportar, amar elas sempre souberam.
Porém, antes de rolar a encosta e se espatifar em pedregulhos ele lhe trouxe um suave ramo de mirra. Encantada pela planta sagrada, sentindo-se divinamente atordoada por pouco não se confundiu e pediu que ficasse. "Tadinha, não viu o sol hoje!" - falando de si-mesma e olhando a planta, atordoada com a terça-feira de carnaval onde a tristeza ao invés de sepultada andava pela casa logrando à todos na chuvosa tarde. Diante do clamor das águas lembrou do que o homem lhe dissera: "antes da onda propícia, sete ondas encantadas virão sinalizando o porvir". Certamente ele era apenas uma precipitação, ou nem isso...
Só o coração para apontar as sete ondas reluzentes. Seria cada uma um fragmento de arco-íris? As substâncias alquímicas? As portas do paraíso? O mar era um oráculo e no tempo certo das coisas, as brisas trariam um saudoso cheiro de mirra, trariam conchas reluzentes, trariam de volta o amor perdido que escoou nas enxurrada das tardes de terça-feira de carnaval...
"Visão do espaço sideral
Onde o que eu sou se afoga
Meu fumo e minha Yoga
Você é minha droga
Paixão e carnaval..."
("Meu bem, meu mal" - Caetano Veloso)
Porém, antes de rolar a encosta e se espatifar em pedregulhos ele lhe trouxe um suave ramo de mirra. Encantada pela planta sagrada, sentindo-se divinamente atordoada por pouco não se confundiu e pediu que ficasse. "Tadinha, não viu o sol hoje!" - falando de si-mesma e olhando a planta, atordoada com a terça-feira de carnaval onde a tristeza ao invés de sepultada andava pela casa logrando à todos na chuvosa tarde. Diante do clamor das águas lembrou do que o homem lhe dissera: "antes da onda propícia, sete ondas encantadas virão sinalizando o porvir". Certamente ele era apenas uma precipitação, ou nem isso...
Só o coração para apontar as sete ondas reluzentes. Seria cada uma um fragmento de arco-íris? As substâncias alquímicas? As portas do paraíso? O mar era um oráculo e no tempo certo das coisas, as brisas trariam um saudoso cheiro de mirra, trariam conchas reluzentes, trariam de volta o amor perdido que escoou nas enxurrada das tardes de terça-feira de carnaval...
"Visão do espaço sideral
Onde o que eu sou se afoga
Meu fumo e minha Yoga
Você é minha droga
Paixão e carnaval..."
("Meu bem, meu mal" - Caetano Veloso)
quarta-feira, 2 de março de 2011
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
A curva, o monte, o céu, o mar.
A descida da serra, uma curva desnudando o monte, o céu. O céu, o mar, o céu e já não se sabia onde terminava um e onde começava o outro. Era aquele desenho de uma sizígia, a apoteose de uma busca que se via eterna, mas era Maya, um engano, uma ilusão porque um todo deixa de ser um Todo se não Todo se fizer. Adorava essa simbiose, mas sabia que não devia. Um exercício diário amar, buscar o amor na terra é como ver desenhos surgir no vagar das nuvens. Sem esquecer que num piscar de olhos todas nuvens se desmancham e por mais que a forma se perca, se souber o compasso do bailar do tempo um novo desenho poderá se achar. Aí morava o segredo de ter olhos brilhantes e cabelos em caracóis. Tatear cegamente as horas tentando esculpir a obra-mór da nossa história de herói. Desapegava e logo apegava-se denovo, matava dragões e tantas outras bestas surgidas dos calabouços de nosso próprio ser.
Algo eu aprendi com a disciplina do Mestre: que as coisas são minhas, somente minhas e quanto mais minhas mais encantos me provocam quando vistas do lado de fora. É como se eu gritasse muda, flutuando em divagações, embaralhada nos vãos desses reflexos, no fundo dos espelhos o eco de duas faces refletidas em Si-Mesmas. O ser brilhava, o ser era um enigma novo a ser decifrado: "amar da melhor forma que encontrasse dentro do espírito do tempo", falava sozinha ao espelho, como se você estivesse ali, ali dentro bem na minha frente, inspiração de tantas histórias. Eu tinha que sofrer, tinha que chorar e confessar as imagens a dor que eu sentia de ser só e o medo que me me invadia de só ser. Nunca chorei pra ti, nunca chorei pra ele, nunca entre nós vi lágrimas e isso me doía mais que qualquer coisa...
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