Esqueci o que era perder a hora. Render-me à preguiça. O pecado do qual mais fujo desde que o tomei como inimigo especial do meu ser. Mas as molas daquele colchão rangiam demais levando-me para vastos vales profundos do meu sentir, precisava ficar lá mais um pouco e ouvir aquela linguagem, aquele quarto grande, aquela colcha de retalhos, a tempestade que vinha e só chegou quando eu já não sabia mais as horas. Nuvem marrom de poeira, tive de levantar-me para observar a dança das árvores, meus dedos nus no vidro gelado da janela, ora me virava ao redor deparando os olhos dos santos no altar do criado mudo e o terço reluzente de contas pendurado na cabeceira da cama, fitavam-me inertes e tantos cantos amarelados naquele cômodo, tanta madeira carcomida, algumas traças na cortina, trazia um misto de culpa e conforto. Afinal pra que me culpar, o que haveria de mais puro naquele instante do que estar ali? Tão viva quanto as árvores em meio ao temporal, entre o barulho de raios, trovões, galhos quebrando, o farfalhar das folhas, as mangas caindo, aí me perguntava atônita porque a natureza investiu tanto tempo em brotos, sol, chuva, pássaros polinizadores, borboletas, cigarras e flores; para que às vésperas do deguste as mangas abismarem o chão ainda verdes - pra onde vai a vida?- A espera é um cruel engano e se não estamos aqui agora não estaremos jamais em lugar algum. Esperar é frustrar-se vendo os frutos verdes perdidos no temporal. Permaneci firme, nos olhos dos santos, os dedos na janela, minha respiração embaçava o vidro, faz calor dentro, faz frio fora. Acordo, sonho, volto a rolar na cama, a me perder nos sulcos do forro formando manchas no teto, espero, deixo de esperar, fico apenas ali, com o cheiro da chuva encontrando a terra seca, com a textura dos retalhos, as molas rangendo, o toque da minha pele em minha pele, um filme efêmero de lembranças, sonhos que desmancham, sonhos que renascem coloridos e inteiros na preguiça gostosa que só me permito sentir na cama de minha avó.
Parabéns mulher mais forte que já vi, pelos seus 85 anos de arte e amor!