sexta-feira, 13 de maio de 2011

Sexta-feira 13, não posso me censurar...



Não posso ceder a minha própria censura. Não posso. Decidi há muito que seria fiel aos meus pensamentos, aos meus segredos sombrios, revelando-os da maneira que fosse, sem culpa e sem remorso, porque sei que só assim conseguirei transpor a mediocridade e me tornar o que eu sei que sou.
 Em Cosmorama os dias fazem o que podem, e as pessoas também, para serem iguais; mas de fato não são. Um dia chove, outro faz sol, segunda choro, quarta acordo rindo; de manhã admiro meu pai, sua dureza e sua ternura; à tardinha minha avó me seduz com café, bolinhos e histórias; na madrugada sei que só minha mãe me entende... O que cada um deles é, diz muito do que eu sou. Ando traçando a dupla-hélice, a escada retorcida que mistura minha mesquinhez com minhas dádivas.
Parece que hoje perdi algumas palavras e não sei bem o rumo deste ensaio, que eu considero um pequeno abrigo. Talvez, se chover demais, corro o risco de ver minhas palavras voltando ao seu estado primevo, de letras solitárias, misturadas com a lama da enxurrada, descendo a encosta da razão. Ficaria sozinha, lamentando o frio e a solidão; pois bem sei que coesão é o alicerce necessário à qualquer dito. Ora, falo, que falo apaixonadamente, numa língua sem nexo e sem perdão.
Enfim, só queria escrever algo parecido com “não me habituei com o tempo”; ‘inda hoje li num livro do Kundera “... o deserto do tempo emergia na penumbra, atroz e esmagador, semelhante à eternidade”, e uma lágrima calada tive que enxugar. Vejo o que ele faz com meu corpo, com essa casa, com meus amigos, com meus amores. Lembranças amargas de um passado que o presente borrou me assombram nas madrugadas, fantasmas vestem branco, são altos, aparecem em sonhos oferecendo doces, me dando a mão. De manhã, o sol volta, trazendo consigo minha lição penosa de que não é isso que eu quero mais. Não posso escolher meu destino, não saberei nunca quem vou encontrar no caminho, se será surpresa, se será poesia, se será dor ou alívio; mas posso ter fé. Posso desejar ser feliz, viver por inteiro e trazer alegria para os que estão ao meu redor. Se os amores vicejam na primavera e perdem a cor no inverno, tudo bem. Tenho minha aquarela na gaveta, meu livro das “Mil e Uma Noites”, e confio no brilho dos meus olhos para reavivar qualquer alma fadigada. O problema não é o inverno em si, nem sua intensidade, é o tempo que ele dura. Uma madrugada pode durar um ano, quando os fantasmas entram nos sonhos engendrando pesadelos. Arruda, espada de São Jorge, figa, incenso, qualquer coisa pra sumir de mim... Pra me deixar em paz. Pra ser só uma lembrança gostosa de um passado virtuoso, que vai ficar enterrado na memória, em fotografias, em velhas canções, mas que se foi com tudo mais que o tempo levou e nunca trouxe de volta. 

Texto escrito no começo do inverno de 2009.