quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Esse ensurdecedor silêncio da madrugada
Há um silêncio áspero característico das frias madrugadas paulistanas, que permeia o quarto e envolve meu corpo em solidão. Saltam vozes em minha mente dizendo tudo que eu não queria ouvir e nada que eu não soubesse, certamente esqueci, mas é certo que ainda sei dessas coisas, verdades incomodas, só agora as escuto, depois que tudo foi calado: a TV da vizinha, celular, liquidifiador, a vitrola, tua voz ausente. De tão áspero, o silêncio arranha minha alma que arde revelada.
Remotos latidos graves de velhos cães presos na eterna vigília por seus donos, distantes, ríspidos e velozes motores e rodas pesam sobre o asfalto. Em algum lugar além, o apito do guardinha, um alarme disparou, um ruído intermitente agudo evita que o silêncio me desnude e me devore de vez.
Uma madrugada fria não é uma tragédia quando sinto seu corpo encaixado no meu sobre a cama macia e sob as quentes cobertas. Você me aquece. Não ouço o quão profundo e atordoante é o silêncio da madrugada. Esse silêncio ensurdecedor, que me dá vontade de fumar, de comer, de escrever, porque não dá pra estar no mesmo lugar em vigília, que este ente, o silêncio da noite, sem que ele revolte nossos fantasmas delirantes ou torne clara nossa incapacidade e fragilidade diante de nós mesmos. Ao seu lado o sono vem me acalentar, e suas juras de amor tornam leve e simples meu viver. Evita que eu entre em contato com uma parte de mim que escreve e escreve e escreve. Isso é ruim, porque se não escrevo, como virei a tornar-me uma grande escritora, reconhecida por minha grande obra, se não houver obra? Isso é bom, porque esse silêncio é denso e pesado, é escuro e gélido, de textura viscosa, tal como um remédio amargo enfiado guela abaixo pela madrasta enquanto você engole o choro, é um pântano cheio de criaturas vis, coberto por névoa, inteiro de puro lodo.
Esse texto é pra dizer que você tem que voltar logo. Pra me amar bem gostoso, pra que eu acorde rindo manhosa querendo dormir mais um pouquinho agarrada em ti, meu macio. Larga mão dessa floresta, destes vagalumes, índias, rios, cantos e danças populares pra voltar e me salvar desse silêncio infinito que faz zumbir meus ouvidos e sucumbir meu corpo. É imperativo: meu corpo desaprendeu a ser feliz sem a presença do seu. No fundo eu sei que todo esse silêncio não é para que eu escreva, nem para que eu visite os porões da alma, é só pra me mostrar que a melhor música é escutar seu assobio no portão avisando que você voltou de longe, de muito longe, só pra me salvar.
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