Dizem que a gente só toma coragem pra mudar quando a dor da mudança é menor que a dor de permanecer no mesmo lugar.
Como ferrugem na alma, era corroída lentamente por aquelas ruas vazias e caladas sob o sol escaldante, que vertiginosamente embaçava a visão do horizonte e turvava o rio caudaloso dos meus pensamentos, que sentiam raiva, pequenez, solidão. Estou vagando pelo deserto em busca de um Oásis, eu pensava, e depois de muito refletir e repensar, fui embora antes da chegada da primavera, fui pra cidade grande, cidade mais grande que já vi, grande demais pra poder conhecer, grande demais pra poder entender. Fui pra São Paulo levando nas malas, roupas, livros e um coração aberto pra amar, um corpo aberto pra casar e me tornar tudo aquilo que eu queria ser.
São Paulo me acolheu como uma mãe, coisa que eu achava que cidade grande não fazia, meu amor me acolheu com paixão e cuidado e eu deslumbrei-me a cada esquina, a cada menina bem-vestida que passava, as vitrines, os senhores esperando o sinal abrir na calçada com seu ar sério e intelectual, ternos, celulares, restaurantes e cafés, carros, carros e mais carros e eu andando a pé... Ainda com o passo lento, porém atento, observando a pressa, a angústia, a ansiedade destas pessoas traduzida em mil cigarros. Como gostam de fumaça? De cinza, de asfalto, de concreto, de alturas, de dinheiro. Tudo acontece aqui e agora o tempo todo, tudo, um amontoado de coisas. Das mais lindas, criativas e fantásticas às mais vis e cruéis. Quero estar em tudo, quero me juntar à todos! Coletivos, ativistas! Quero plantar flores e abraçar as pessoas no metrô. São Paulo desperta desejos, provoca ilusões, faz eu querer o que eu não preciso só porque é bonito, caro e brilha, faz eu esquecer do que é importante, por não estar logo ali adiante. São Paulo é luxo e lixo abundante, é tudo, tudo, é a integridade dos opostos, é a plenitude, por mais que pareça que não.
Dois meses imersa nesta capital, precisei voltar pra Cosmorama, minha alma pediu, meu corpo me levou.
Em busca do equilíbrio, fui do cheio ao vácuo, da plenitude ao vazio.
Havia me esquecido, e como é bom esquecer...
O céu aqui é tão azul e o sol tão forte que posso sentir o contato dos raios na pele, os olhos ardendo e a sede constante, as ruas tranquilas, quase vazias, as pessoas caminham suave porém com olhos cerrados, a testa franzida e os ombros curvados, aparentando fardos pesados e irremediáveis. Ao meio-dia o silêncio é perene, entrecortado levemente pelo som do vento farfalhando as árvores e dos talheres nas mesas das casas que sobressai ao som dos motores dos automóveis. Não ouço buzinas, pouco ouço os automóveis. Ouço murmúrios, conversas de pessoas e latidos de cães. Caminho sozinha por algum tempo, a solidão invade meu ser, esta solidão de realmente peregrinar sozinho, sem encontrar ninguém pelo caminho. Posso ver o horizonte distante, não há obstáculos, obstruções, tudo aberto, a liberdade canta, pássaros voam. Há cana, cana e mais cana, coitada da cana, pobre planta escravizada pelo homem, podia haver agroflorestas, mas só há monocultura. Cosmorama também precisa de cura, como São Paulo, como o planeta, como nós, como eu. Cosmorama me cura, como São Paulo, como o planeta, como nós juntos, como o cheiro da minha avó, o riso de mãe, do pai, do irmão e o calor do meu amor.
Em São Paulo a plenitude me sustenta, em Cosmorama o vazio me nutre e assim encontro a integridade. Do campo e da cidade. Por fora e por dentro do meu coração.
Foto: Joel Silva, 2012, chácara, Cosmorama.