Era uma, duas, três, vezes um cavalo-marinho-de-Tróia com o rabinho preso num rochedo. Grávido de gregos o cavalo ia e vinha no fluxo das correntes marinhas. No tempo exato, datado, fadado, marcado: o cavalo deu à luz!
Luiza circulava pela festa como um cachorro atrás do rabo. Conversa aqui, ali, dá risada, dança um pouco, pára em outra roda: "quanto tempo", "por onde anda?", "queridaaa!", cigarros e goles de cerveja até que se deu conta que dessa vez chegou à festa acompanhada. Esqueceu? Esqueceu porque não era natural, sempre chegou sozinha e foi embora com alguém, mas cansou dessa condição te pego na saída; "deve ser porque fui muito briguenta no colégio"- pensava; e após muita prece, disciplina e meditação inverteu o fluxo da maré: chegou acompanhada de Hector, um cara alto lindo lindo lindo, todo paciente, sereno, timbre grave e tom baixo, tinha nome de domador de cavalos, mas lembrava Netuno: seguro de si e sem medo do mar revolto. Luiza, ai, Luiza, já havia naufragado milhares de vezes, foi engolida por baleias, dragões, chegou a ser prisioneira de uma misteriosa feiticeira, habitou uma ilha com povos nativos que falavam línguas tão antigas quanto a origem da palavra. Certo que aí morava o encanto dos dois. O Senhor Ancião das marés e a bela naufrága guerreira de cabelos desgrenhados coberta de algas.
Então avistou Hector, numa conversa à dois com A Outra.
Acendeu um cigarro e ficou observando, um trago, um gole, respira. Tudo bem... O seu amor/ Ame-o e deixe-o/ Livre para amar... Alimentava a ideologia doce bárbara e acreditava morar no que nomeou de "desapego apegado" o caminho ideal. Entretanto enfiava os pés pelas mãos em diversas contradições impossíveis de evitar, que viravam culpa, mágoa, ciúmes, lua minguando, ressaca da maré. A festa estava esvaziando, a conversa dos dois cheia de risos e olhares brilhantes parecia não ter fim. Luiza era confiante, porém indecisa, um paradoxo, sim, claro, um paradoxo, uma relação dialeticamente interna e angustiante que precisava imediatamente convergir numa síntese e vir à tona em atitude.
- Hector! Tudo bem, tudo bem mesmo, mas eu vou com vocês! -disse de uma vez só, com olhos arregalados para os dois, segurando o copo com as duas mãos pela necessidade de se segurar.
- Ahn?
- Tô dizendo que eu entendo que você se encantou por ela, mas não vou deixar que me deixe para acompanhá-la, eu vou junto com vocês dois.
- Luiza...
- Isso mesmo, vou junto, tô com sono, vocês podem transar que eu vou dormir, amanhã de manhã talvez entro no menage.
- Que maluca você? Mas eu gostei dela e da idéia Hector! - disse A Outra com seu sorriso largo e seus brancos dentes.
- Mas...
- Hector, vamos ser livreeees, você não quer ser livre, eu também, cansei de ser Madre Teresa de Calcutá e dar tudo aos outros, também não sei ser egoísta e exigir que você fique apenas comigo pra todo-sempre-amém, então é isso: o caminho do meio, desapego apegado. Vou com vocês. Não vou pra casa sozinha, parar no meio do caminho, chorar na sargeta porque você veio comigo e foi embora com ela, se encantou e se perdeu no meio do caminho. Vou junto porque é madrugada. Madrugada fria, sombria, espectral, apocalíptica pro teor de álcool do meu sangue. Entendido? Não aceito NÃO. Vou com vocês!
- Olha Luiza, só estava conversando, imaginei que você estava se divertindo por aí com seus milhares de amigos e como só conheço ela nessa festa resolvi aproveitar pra trocar uma idéia, mas já que você é uma maluca libidinosa que quer dormir à três... Não sei o que fazer... Acho que podemos ir!- diz sorrindo para todos os lados- Na minha, na tua ou na casa dela?
Cavalo-marinho-de-Tróia grávido de gregos invasores, traidores, ilusionistas... Tudo bem... É isso mesmo o desapego apegado, a invasão doce e bárbara que Luiza permitiu no coração.