sábado, 21 de agosto de 2010

Cavalos-marinhos-de-Tróia

Era uma, duas, três, vezes um cavalo-marinho-de-Tróia com o rabinho preso num rochedo. Grávido de gregos o cavalo ia e vinha no fluxo das correntes marinhas. No tempo exato, datado, fadado, marcado: o cavalo deu à luz!

Luiza circulava pela festa como um cachorro atrás do rabo. Conversa aqui, ali, dá risada, dança um pouco, pára em outra roda: "quanto tempo", "por onde anda?", "queridaaa!", cigarros e goles de cerveja até que se deu conta que dessa vez chegou à festa acompanhada. Esqueceu? Esqueceu porque não era natural, sempre chegou sozinha e foi embora com alguém, mas cansou dessa condição te pego na saída; "deve ser porque fui muito briguenta no colégio"- pensava; e após muita prece, disciplina e meditação inverteu o fluxo da maré: chegou acompanhada de Hector, um cara alto lindo lindo lindo, todo paciente, sereno, timbre grave e tom baixo, tinha nome de domador de cavalos, mas lembrava Netuno: seguro de si e sem medo do mar revolto. Luiza, ai, Luiza, já havia naufragado milhares de vezes, foi engolida por baleias, dragões, chegou a ser prisioneira de uma misteriosa feiticeira, habitou uma ilha com povos nativos que falavam línguas tão antigas quanto a origem da palavra. Certo que aí morava o encanto dos dois. O Senhor Ancião das marés e a bela naufrága guerreira de cabelos desgrenhados coberta de algas.

Então avistou Hector, numa conversa à dois com A Outra.
Acendeu um cigarro e ficou observando, um trago, um gole, respira. Tudo bem... O seu amor/ Ame-o e deixe-o/ Livre para amar... Alimentava a ideologia doce bárbara e acreditava morar no que nomeou de "desapego apegado" o caminho ideal. Entretanto enfiava os pés pelas mãos em diversas contradições impossíveis de evitar, que viravam culpa, mágoa, ciúmes, lua minguando, ressaca da maré. A festa estava esvaziando, a conversa dos dois cheia de risos e olhares brilhantes parecia não ter fim. Luiza era confiante, porém indecisa, um paradoxo, sim, claro, um paradoxo, uma relação dialeticamente interna e angustiante que precisava imediatamente convergir numa síntese e vir à tona em atitude.
- Hector! Tudo bem, tudo bem mesmo, mas eu vou com vocês! -disse de uma vez só, com olhos arregalados para os dois, segurando o copo com as duas mãos pela necessidade de se segurar.
- Ahn?
- Tô dizendo que eu entendo que você se encantou por ela, mas não vou deixar que me deixe para acompanhá-la, eu vou junto com vocês dois.
- Luiza...
- Isso mesmo, vou junto, tô com sono, vocês podem transar que eu vou dormir, amanhã de manhã talvez entro no menage.
- Que maluca você? Mas eu gostei dela e da idéia Hector! - disse A Outra com seu sorriso largo e seus brancos dentes.
- Mas...
- Hector, vamos ser livreeees, você não quer ser livre, eu também, cansei de ser Madre Teresa de Calcutá e dar tudo aos outros, também não sei ser egoísta e exigir que você fique apenas comigo pra todo-sempre-amém, então é isso: o caminho do meio, desapego apegado. Vou com vocês. Não vou pra casa sozinha, parar no meio do caminho, chorar na sargeta porque você veio comigo e foi embora com ela,  se encantou e se perdeu no meio do caminho. Vou junto porque é madrugada. Madrugada fria, sombria, espectral, apocalíptica pro teor de álcool do meu sangue. Entendido? Não aceito NÃO. Vou com vocês!
- Olha Luiza, só estava conversando, imaginei que você estava se divertindo por aí com seus milhares de amigos e como só conheço ela nessa festa resolvi aproveitar pra trocar uma idéia, mas já que você é uma maluca libidinosa que quer dormir à três... Não sei o que fazer... Acho que podemos ir!- diz sorrindo para todos os lados- Na minha, na tua ou na casa dela?

Cavalo-marinho-de-Tróia grávido de gregos invasores, traidores, ilusionistas... Tudo bem... É isso mesmo o desapego apegado, a invasão doce e bárbara que Luiza permitiu no coração.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

de luas e temperança

De luas em luas. De luas nas ruas. Incensos de massala, sândalo. Ouvia no quarto ao lado um Tim Maia Racional. Estava bêbada. Havia mudado o endereço das suas confissões, ainda não havia se acostumado. Mas qualquer terceira pessoa era ela mesma, é bom informar o leitor, talvez mais um nós de nós mesmas, quantos ums, quantos?! Qualquer um, qualquer outro. E aí? Zás!!! Semana que vem: lua cheia! Mas tudo beeeem, aguenta firme e forte e guerreira e linda e maravilhosa por isso, como ela, agora faço questão de estar presente. Presente no agora. Mesmo quando parecia absorta por seus sonhos, procurava o novo, procurava sentir ao redor e além. No além? O além era o lar das velhas histórias. Pobres histórias às quais ela se apegava com tanta força! Tanta que chegava a colecionar os cacos e os cactos de tudo que se foi, troféis de sucata. Bicho homem e seus símbolos! Maaas ah! Tinha memória, gostava de remexê-la, lindos, todos, tantos! A Culpa vinha e dizia: - o que você está fazendo? Ela simplesmente respondia: - Tô bem grandinha, sei o que eu tô fazendo, faz favor de sumir daqui?

Terapia? Terapia meu bem, é a vida, é tentar achar o equilíbrio entre os pólos! Entre todos os pólos. Entende? Encontrar o equilíbrio entre todos os pólos. O ideal é ser movimento, transitar, fluir o tempo todo. Entre Apolo e Dionísio, fluiiiiiinnndoooo. Apolo e Dionísio... Dionísio... Lua cheia, fruta madura e suculenta. Apolo, provações de herói, todos os dias e horas marcados, o limite, a responsabilidade. Só quero ser livre. Quem é livre, acabei de ler por aí, não tem medo do ridículo. Quem é livre vem aqui te dizer que agora estão numa relax, numa tranquila, numa boa. Até tô nessa, mas não, ainda não sou livre. Sou presa à uma lapiseira zero.três, à sabonetes Phebo Amazonian; ela é presa à fotografias mnemônicas que de tão gastas já foram reeditadas à gosto do freguês.

Ela não é livre. Mas andou na linha. Por isso, de luas em luas todo universo concatena para que algumas coordenadas coincidam em um plano cartesiano que não é plano, nem Descartes. É um Algo, que redime o sacrífio, Algo que vem laçar o sentido, traçando uma lemniscata em fita de cetim ao som de requiem de Mozart, isso sim, algo maior, algo que é Deus, é o Tao, é tudo e tudo e nada e não, seu Nome é impossível de ser pronunciado.






terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Panteísmo Anárquico.


Pra uma Panteísta Anárquica, nada melhor que minhas próprias orações.
Elas surgem, elas vem. Aparecem inteiras após a contemplação do silêncio.


Ser capaz de criar de lidar de aparar alimentar curar e sarar e estar.
Ser capaz de se responsabilizar de se culpar de checar de chorar e ver passar.
Ser capaz de acordar levantar se alinhar e jamais lamentar.
Obrigada Universo!

sábado, 14 de agosto de 2010

Mitos cosmogônicos :Faça-se um blog!

Segue uma das variantes do mito cosmogônico chinês de Pan Ku:

A criação do mundo não terminou até que P'an Ku morreu. Somente sua morte pode aperfeiçoar o Universo: de seu crânio surgiu a abóbada do firmamento, e de sua pele a terra que cobre os campos; de seus ossos vieram as pedras, de seu sangue, os rios e os oceanos; de seus cabelos veio toda a vegetação. Sua respiração transformou em vento, sua voz, em trovão; seu olho direito se transformou na Lua, seu olho esquerdo, no Sol. De sua saliva e suor veio a chuva. E dos vermes que cobriam seu corpo surgiu a humanidade.

trecho extraído do livro "A Dança do Universo" de Marcelo Gleiser.