quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

"Projeção barata, transferência que me mata" parte 9001

"... Sei que você fez os seus castelos
             e sonhou ser salva do dragão,
                             desilusão meu bem,
 quando acordou estava sem ninguém.."
                           (Mesmo que seja eu - Erasmo Carlos)

         Não sei ser fiel. Não sei mesmo. Até já fui. Mas hoje, na condição em que me encontro... desisto. Tenho preguiça de sentir culpa por nada, por ter beijado um velho amigo depois de três cervejas e conversas profundas, que coisa mais pequeno-burguesa esse sentimento de posse do outro? Aff! O amor que sinto por quem sinto, amor, o amor mesmo, o amor não muda. Não muda! Muda a relação: amigo vira amante que vira namorado que torna a ser amigo, o amor não. O amor é o centro, é a essência, o amor quando é amor não muda. Agora relação... Relacionamento. Relou-é-só-lamento. Lama e tormento. Laço, mente, manto, muito, minto, mundo. Cimento. Ciumento. Cio-momento. Constela! Constela! Eu tento ser livre, fina, graaaande, alargar horizonteees, partir rumo à liberdade... 
Mas tudo não passa de uma grande fraude. 
É um paradoxo intenso, um exercício de integração de opostos. Não sei ser fiel, logo, permito que aqueles com os quais me relacionam sintam-se à vontade para fazer o que eles bem entendem...  Mas sabe o que rola? Rola que eles sempre fazem algo. Não um "alguinho" de fim de noite, eles simplesmente... Retiram do meu eu toda a energia depositada, prometida, manifesta até então e redirecionam a energia para o algo. Então eu, uma das partes do relacionamento, me torno espectadora do liiindo desabrochar de um novo relacionamento, entre o meu amor e o algo. 
         Estamos agora em uma novela relacional na qual eu deixo de ser a personagem principal para onde incide a luz de todos os holofotes, para ser uma pobre espectadora. Medíocre, confusa, mastigando a pipoca de boca aberta com os olhos fixos na tela, espectadora tonta, que fica ansiosa pelos próximos capítulos. O amor torna-se nauseante, sou invadida instintivamente por horríveis sensações córporeas, tensões, arrepios, dentes cerrados, enrijecimentos, couraças de defesa, fome, agressividade, ironia... Sim, claaaaro, sintomas de ciúmes! Sentiu o paradoxo? Funciona assim, eu digo: "Tudo bem... Vamos virar três doses de tequila e dar looping na montanha-russa pra ver rolar a emoção...!" E aí? Aí eu não aguento. Eu simplesmente grito para pararem que eu tô querendo descer!
           Entro num ciclo dramático que alterna períodos de mania e depressão, pensamento fragmentado, diálogos internos esquizofrênicos de alter-ego na sala da recepção reclamando do quarto onde se hospedou. "- Vai sua Anta, vaaai, bem feito, entrega teu coração numa bandeja e espera ele voltar moído, logo esse seu coração quase vegetariano, pobrezinha, sempre em dezembro... Papai noel te ama hein? Mas que filho da puta, desejando paz e amor tirando a paz e causando desamor, também vou me vingar saindo por aí semeando a discórdia! Não, melhor, vou sair por aí dando todo meu amor pra todo mundo que eu devia  estar dando meu amor mas não consigo, porque mesmo não sabendo ser fiel eu sou fiel! Mas chega né? Eu sou uma incrível gostosa cheia de admiradores e vai ser uma pena e tanto, também não queria mesmo, mentira, ai que coisa, nunca me senti tão plena e segura e certa de que havia encontrado um tesouro, ah droga!..."

"... sozinha no silêncio do seu quarto
procuro a espada do seu salvador
e num sonho se desespera
jamais vai poder livrar você da fera
da solidão..."
(Mesmo que seja eu - Erasmo Carlos)

Sim. Continuo presa na roda da ilusão, repetindo, repetindo, repetindo... Deve ser mesmo porque eu adoro drama, adoro sofrer, me sinto tão viva! Tão inspirada! Sou naturalmente positiva e feliz e é essencial que alguém me induza à fossa, adoro essa novela, cores fortes e conflitantes, calor, Bethânia Caetano e Chico, um pouco de tango, noites mal dormidas, livros de tragédia, fugas pro colo dos velhos amigos, abraços fortes e comoventes, contemplações na solidão do meu quarto, telefonemas de carência desesperada às duas e meia da manhã, meus cadernos preenchidos e manchados pelas lágrimas que caem, textos e textos e textos como esse, escancarando elaborações íntimas em redes sociais cheias de sádicos insones entrando em êxtase pelo meu sofrimento...